Canal interno para relatos sensíveis
McDonald’s
Projetar um canal de denúncias não é um problema de interface. É um problema de confiança.
Este mini-case documenta o redesenho de um canal interno usado por colaboradores do McDonald’s para envio de relatos éticos e denúncias. A decisão central foi tratar o formulário como parte da infraestrutura institucional, responsável por reduzir medo, ambiguidade e abandono em um contexto corporativo de grande escala.

O projeto
O trabalho partiu de um formulário já existente.
O bloqueio não estava nos campos, mas na leitura que o colaborador fazia do canal. Medo de exposição, dúvida sobre anonimato e desconfiança sobre o destino da informação impediam o uso.
A decisão foi assumir o design como elemento ativo na construção de confiança. A interface precisava deixar claro, desde o primeiro contato, que o canal era seguro, sério e previsível.
O desafio
Cada decisão de design influenciava diretamente a escolha entre seguir ou desistir.
Estavam em jogo:
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percepção real de anonimato
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risco de exposição
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clareza sobre o que acontece após o envio
Havia um descompasso entre a intenção institucional e a experiência percebida. Esse ruído comprometia a credibilidade do canal e colocava o sistema inteiro em risco.

Decisões de produto
Empatia não foi tratada como linguagem emocional, mas como critério estrutural.
O fluxo foi desenhado a partir de perguntas objetivas:
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a pessoa se sente segura antes de escrever?
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o destino da informação está explícito?
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o anonimato é compreendido como garantido?
As escolhas centrais foram:
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anonimato explícito desde o início do fluxo
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redução do formulário ao mínimo necessário
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linguagem direta, sem tom jurídico ou punitivo
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feedbacks previsíveis, sem surpresa ou ameaça
A meta não era estimular denúncias. Era remover os motivos que impediam o uso.
Processo
A prototipação seguiu rigorosamente o manual de marca do McDonald’s para preservar consistência institucional.
O trabalho começou pelo mapeamento de riscos de uso e seguiu com protótipos navegáveis em Adobe XD, validados com foco em compreensão e previsibilidade.
Elementos visuais chamativos, metáforas e qualquer forma de gamificação foram descartados. A interface precisava transmitir seriedade, não engajamento.

Papel do design
Atuei como Product Designer responsável por traduzir riscos humanos em decisões concretas de produto.
O trabalho equilibrou diretrizes de marca, responsabilidades institucionais e leitura real de uso. O resultado não foi um formulário mais bonito, mas um canal de escuta funcional em um contexto sensível.
Resultados observados
Métricas detalhadas não são públicas.
Ainda assim, mudanças de percepção ficaram claras. O funcionamento do canal passou a ser melhor compreendido, a fricção diminuiu e a confiança aumentou. O formulário deixou de ser visto como obrigação e passou a ser reconhecido como um meio legítimo de relato.
Aprendizados
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Empatia só funciona quando orienta decisão, não discurso.
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Anonimato precisa ser percebido como real antes de qualquer validação técnica.
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Clareza sobre o processo reduz mais medo do que qualquer camada visual de proteção.
Projetos como este mostram que design de produto também assume responsabilidade social ao criar condições seguras para ação.
Encerramento
Este projeto evidencia como Product Design atua em contextos humanos críticos.
Antes de qualquer interface, alguns sistemas precisam garantir que as pessoas consigam agir sem medo.



